Toninho Carrasqueira nasceu numa família musical. Seu pai, João Dias Carrasqueira, pintor, poeta, ator, é considerado como um dos maiores flautistas e um dos grandes professores brasileiros. "Quando meu pai voltava de seu trabalho, nossa casa se transformava em uma escola de música. Com ele aprendi a tocar, como que brincando, naturalmente."
Na casa de Toninho, ouvia-se música o tempo todo. Suas duas irmãs estudavam piano e suas primas, acordeom e violão. Seu pai freqüentemente realizava saraus de música clássica e rodas de choro.
Aos 14 anos, já tocando flauta, Toninho começou a se apresentar em público, ao lado de seu pai e de sua irmã Maria José, ao piano. Aos 15, Toninho Carrasqueira conheceu a professora Beatriz Dietzius, pessoa determinante em sua formação. "Era uma violista suíça que organizara uma orquestra de câmara formada por jovens. Tinha uma visão muito interessante da música. Pintora, como meu pai, ela buscava destacar as nuances, sutilezas, os contrastes de luz e sombra. Nos ensaios eu buscava realizar um amálgama entre a sonoridade da flauta e das cordas, fazendo dos sons um só, e então, mais adiante, em outro trecho, separando-os."
Aos 18 anos, o flautista ingressou na recém-formada Orquestra Filarmônica de São Paulo. "Foi um período de rico aprendizado - sobre música, regência, ética, atitude profissional, disciplina, paciência, trabalho em equipe, psicologia, humildade, relações humanas."
Em 1973, Toninho Carrasqueira recebeu uma bolsa de estudos do governo francês. Alguns de seus professores europeus causaram-lhe profunda impressão, sendo fundamentais em sua formação musical. Um deles, Roger Bourdin, dizia que o verdadeiro artista tem que arriscar sempre, buscar o inatingível, ir sempre mais e mais longe. Como seu aluno, Toninho concluiu o curso superior do Conservatoire National de Versailles conquistando o prêmio máximo, o almejado "1er. Prix".
"Roger Bourdin foi um grande mestre. Um músico apaixonado, que me ensinou que, diante da grandeza da música, é necessário ter sempre uma postura de muita humildade e persistência."
Christian Lardé era professor de música de câmara no Conservatório de Paris. Com ele, Toninho Carrasqueira teve aulas particulares.
"Depois de um tempo, o professor me propôs que, desde que pudesse fundamentar minhas interpretações com argumentos lógicos, mesmo não concordando, ele aceitaria como válida qualquer interpretação minha. Isso, ao mesmo tempo em que me fez sentir respeitado como artista, propiciou-me uma grande reflexão e um trabalho interessante, no sentido de conseguir explicar racionalmente um procedimento intuitivo."
O instrumentista ingressou, a seguir, na École Normale de Musique de Paris (ENMP), cujo professor de flauta, Fernand Caratgé, era conhecido não só por suas qualidades mas, também, por seu difícil caráter. No final do curso, Toninho Carrasqueira conquistou a “License de Concert”, título máximo outorgado pela ENMP.
Para Toninho, seu maior mestre foi James Galway: "Quando tocava, era como se estivesse possuído pela música. Identifiquei-me com sua maneira de tocar. Senti-me, pela primeira vez na vida, como alguém que descobre um guru."
Certa vez, depois de ter tocado uma peça muito difícil com perfeição, Galway lhe disse: "Antonio, pode-se perceber que você é um exímio flautista e conhece muito bem a escola francesa de flauta, com suas nuances e riqueza de timbres. Ótimo! Só que nada disso me interessa. Por favor, toque de novo, mas desta vez me fale de você, me diga quem você é!"
Toninho Carrasqueira percebeu, naquele instante, que a colocação feita por James Galway dizia respeito à essência do ato de tocar um instrumento musical. "Era de fundamental importância para quem busca na música uma forma de auto-expressão. Toda obra tem suas 'leis' de interpretação, pertencentes a um 'estilo', ao universo de sua época. É dever de um intérprete conhecê-las muito bem e respeitá-las para não haver a descaracterização daquela peça. Creio que o que James Galway quis dizer é que, para um verdadeiro artista, isso não basta. Ele deve ser capaz de conseguir se identificar e se apropriar daquele texto musical de tal forma, que possa transmitir sua própria verdade, contar sua própria história."
Entretanto, a figura fundamental na formação de Toninho Carrasqueira vem de dentro de sua casa: João Carrasqueira, seu pai. "Ele foi um flautista e mestre extraordinários. Seu som, sempre expressivo, tinha vida. Sua habilidade técnica e agilidade eram impressionantes. Conhecia profundamente o material pedagógico, livros e métodos para flauta. Sua abertura de espírito e sua técnica excepcional permitiam que abordasse com a mesma naturalidade uma sonata de J. S. Bach, um choro de Pixinguinha ou uma peça para flauta e fita magnética de Bruno Maderna. João Carrasqueira não era somente um grande professor de música, era um mestre de vida. Seus ensinamentos me norteiam até hoje."
De tudo o que aprendeu, o que ficou de mais útil para o flautista foi perceber que o músico tem grande importância na criação de um mundo mais solidário e harmonioso.
Quando o assunto é o aprendizado autodidata, Toninho Carrasqueira diz: "Por melhor que sejam os professores, cada músico descobre sua maneira de aprender meio que sozinho, assim como na vida, na prática. Aprendi, por exemplo que, sendo a música um meio de auto-expressão no qual cada um pode praticar seus diferentes aspectos - carinhoso, agressivo, melancólico, alegre -, evoluir como músico significa conhecer-se melhor e evoluir também como ser humano, pois o bom músico é generoso, está disponível, sabe ouvir o outro, tocar junto e afinado. O bom músico se entrega, para servir à música e ao ouvinte. E isso se pratica tocando."
Entre os músicos com quem conviveu e convive, Toninho Carrasqueira destaca a importância de seu pai e seus professores, bem como do clarinetista Nailor Proveta, do bandolinista Izaias e dos violonistas Edson Alves e Maurício Carrilho. As características que mais lhe chamam a atenção em seus colegas são dedicação, humildade, generosidade, auto-confiança, busca da transcendência e alegria.