Formação
“Desde que me lembro de mim, gosto de música. Minhas primeiras lembranças me levam às cantigas de ninar que minha mãe cantava. Depois à calçada e às cantigas de roda. A família era grande e morávamos num casarão de dois andares ligados por aquela escada de madeira que range. Lembro-me dos meus tios tocando violão, vinham os choros e as valsas, os espanhóis, Bach e tudo o mais, até que me mandavam para a cama. Subia a escada, com medo do escuro, e ia me deitar. Na cama eu me consolava ouvindo os sons meio distantes do violão, doces, lá embaixo na sala, e tudo se apagava. Minha avó tocando piano, tios tocando violão, mamãe cantando e tudo o mais ... “
Dentre essas velhas cantigas, “Casinha pequenina” era a sua favorita. A avó materna tocava piano de ouvido, e um tio-avô era cantor de ópera. Havia saraus noturnos na casa dos Jobim. Dois de seus tios maternos eram ligados à música – um, à música clássica, outro, à popular.
“Meu lado materno está cheio de gente musical e que praticava música mas, até onde sei, nenhum se profissionalizou."
Seu primeiro professor de fato foi, aos 14 anos, Hans-Joachin Koellreutter e, orientado por ele, aprendeu a ler música, praticou escalas e estudou muito. Koellreutter passou a Tom conhecimentos de harmonia e contraponto e "rudimentos de execução pianística".
“Koellreuter me ajudou muito, me ensinou as coisas básicas e, mais tarde, algo de composição e harmonia. Não era o professor burro de piano. Ele abriu os meus olhos.”
Com Koellreutter e com Villa-Lobos (que nunca foi seu professor, mas sempre teve sua admiração), Tom descobriu não haver fronteiras rígidas entre o erudito e o popular.
Antes, envolveu-se com o violão e a gaita de boca. "Eu comecei na gaita e no violão. O piano até poderia ter chegado mais cedo, mas naquele tempo eu estava muito ocupado em ir à praia, tomar sol, ouvir o canto dos pássaros."
Aos 16 anos, resolveu estudar harmonia e composição com Paulo Santos, um dos mestres mais respeitados da Escola Nacional de Música. Decepcionou-se. “Ele era muito sistemático, cheio de regras impositivas, não permitia que se fizesse quarta nem quinta, me fez sentir muito preso”.
Mas a discordância com os métodos acadêmicos não fez com que Tom perdesse o interesse pelos clássicos e pela orquestração. Passou a freqüentar o Teatro Municipal e comprava partituras e gravações de músicos como Prokofiev, Schoenberg e Stravinsky.
Decidido ainda a seguir a carreira como pianista, estudou brevemente com o pianista espanhol Tomás Gutiérrez de Terán, amigo de Villa-Lobos.
Quase ao mesmo tempo, teve como professora Lúcia Branco – uma pessoa decisiva em sua formação, pois com ela descobriu a vocação para compor e desistiu de ser concertista. Tom tinha o “polegar preso”, com dificuldade para tocar oitavas, e Lúcia o convenceu a investir na composição.
Mais adiante, no início da década de 1950, Tom trabalhou na Rádio Clube do Brasil, cujo Diretor Musical era o maestro Alceu Bocchino; com ele, ainda que informalmente, Tom iniciou-se na prática da orquestração e, pela primeira vez, teve uma orquestra à sua disposição. Por volta dessa época, estudou orquestração com Leo Peracchi.
Já então envolvido com a profissão de músico, tocando da noite porém decidido a mudar o rumo da carreira que mal se iniciava, Tom resolveu seguir por conta própria, aprofundando-se nos Princípios de Orquestração, de Rimski-Korsakov, e nos arranjos de Glenn Miller (de quem tinha toda a coleção de discos).
O último passo importante de sua formação aconteceu em meados da década de 1950, no contato com Radamés Gnattali. Tom havia escrito a “Sinfonia do Rio de Janeiro”, em parceria com Billy Blanco, e coube a Radamés fazer a orquestração da obra para a gravação em disco. Radamés, que à época era um dos arranjadores e maestros de maior prestígio no mundo musical brasileiro, “adotou” Tom como discípulo, ajudou-o a arrendondar seus conhecimentos de instrumentação, deu a ele a oportunidade de fazer arranjos para canções populares, e partilhava da mesma inquietação criadora, da vontade de ultrapassar as fronteiras entre o clássico, a música brasileira, a grande canção americana e o jazz.
Tom sempre dedicou palavras carinhosas a Radamés, e homenageou-o com dois choros em seu último disco: "Meu amigo Radamés", e outro sugestivamente intitulado “Radamés y Pelé”.
Outro de seus "mestres" - pois Tom assim se referiu a ele durante toda a vida - foi Leo Peracchi, com quem Tom estudou orquestração na década de 1950.
Já músico maduro e consagrado, Tom teve no maestro polonês Claus Ogerman um parceiro em diversos arranjos e orquestrações nos discos que gravou nos Estados Unidos. Claus nunca foi professor de Tom, nem Tom foi professor de Claus, porém na colaboração entre os dois havia, certamente, uma grande dose de aprendizado mútuo.