Forma��o
A mãe de Silvia Goes era pianista erudita e, também, tocava jazz. Seu pai era violonista autodidata.
Silvia não se lembra, mas o que seria sua lembrança musical mais remota ela conhece por ouvir sua mãe contar.
“Quando nasci, minha mãe dava aulas de piano em casa. Eu era filha única e ficava na sala enquanto ela dava as aulas. No meu primeiro ano, era normal que eu só ouvisse, pois ainda não era o momento da ‘fala’. Porém, mesmo com dois anos eu continuava sem falar. Como já havia sido diagnosticado que eu não tinha nenhum problema no aparelho auditivo e nem no reprodutor da fala, o que ocorria era apenas preguiça de falar, segundo o médico. Durante o terceiro ano de vida é que comecei a falar. No entanto, acontecia um fato curioso que provava que eu não era muda: desde os dois anos de idade eu falava o nome das notas - dó, ré, mi, fá, sol, la, si. De tanto ver minha mãe corrigir os alunos, eu também o fazia. Não tenho exatamente uma lembrança desse fato, mas sei que foi verdade pois fora motivo de muita preocupação entre todos da família.”
A experiência vivida por sua mãe foi determinante nos estudos, ou melhor, nos não estudos de Silvia Goes.
“Na verdade, eu não estudei de forma convencional. Minha mãe, depois do casamento, foi proibida pelo meu pai de seguir a carreira artística. Dessa forma, ela não queria que o mesmo acontecesse comigo e dizia que eu não devia estudar porque mais tarde, quando eu me casasse, o marido com certeza não me deixaria tocar e isso me traria uma sensação muito ruim. Aí eu ficava aprendendo sozinha, apenas olhando o que se passava em casa. Ela tocando piano e ele tocando violão.”
O violão foi o primeiro instrumento de Silvia.
“Comecei a trabalhar como violonista em 1958, aos 11 anos de idade e, por causa disso, não estudei. Na época, eu estava no colégio, não me lembro bem mas, talvez, entrando no ginásio.”
Já tocando e trabalhando, Silvia se viu na contingência de ter que arrumar um jeito próprio de estudar e aprender música.
“O meu método - porque eu precisava de algum para tocar - era ouvir. Eu ouvia muito, prestava atenção e ficava imaginando como era tocar aquele acorde, que notas eram aquelas, etc. Eu ouvia muito jazz, bandas e, também, muita coisa de violão, tipo Dilermando Reis.”
Evidentemente, deste aprendizado, o que ficou de mais útil para Silvia Goes foi desenvolver a percepção musical.
Neste autodidatismo – aprendendo ao ouvir e ao conviver com outros músicos – Silvia foi colecionando pessoas importantes para sua formação musical.
“Acho que da maneira como as coisas aconteceram, praticamente todos os músicos com os quais fui tocando foram importantes para mim. Era a maneira que eu tinha para aprender, tocando junto e ‘olhando’ como eles tocavam.”
“Do ponto de vista pianístico tive ótimas conversas com três grandes pianistas que, para mim, serviram como incentivo para seguir em frente: Amilton Godoy, Paulo César Willcox e Gogô (Hilton Jorge Valente). Se hoje eu sou pianista foi porque eles me fizeram entender que eu devia acreditar em mim. E note-se que não tive aula com nenhum deles, apenas convivi com eles.”