Forma��o
A música jamais faltou à família de Ruy Quaresma, a começar pelo violão do avô e o piano do pai.
“Meu avô e meu pai eram músicos amadores. Avô tocava violão, e pai, violão e piano, além de compor – teve músicas gravadas por Nelson Gonçalves. Dois irmãos tocavam piano, e outro, violão. A presença da prima/tia Lindaura Rosa, viúva de Noel Rosa, nas festas familiares, me incentivou a conhecer melhor a harmonia no violão, para acompanhá-la cantando. Fui o primeiro profissional da família. Com 14 anos fiz minha estréia como solista de violão, dividindo o palco com o conjunto Fórmula 7, de Hélio Delmiro, Luizão Maia, Márcio Montarroyos, Hélio Celso, Nelsinho, Pedrinho, Gerson e João Luiz, no Clube Vila Isabel.”
Suas lembranças mais antigas da música remetem a muito e bom som:
“O piano do meu pai, Nat King Cole cantando boleros, Cauby Peixoto cantando ‘Conceição’; e eu, imitando meu pai, tentando e conseguindo compor um samba aos 8 anos”.
Ele começou a estudar música aos 12 anos, em 1964, “em meio ao clima sinistro do pós-golpe de 64”. (n. e.: golpe militar que, em 31 de março de 1964, tirou do poder o presidente João Goulart e estabeleceu por duas décadas uma ditadura no país.)
“Exatamente no dia 10 de agosto de 1964 tirei o violão do meu pai da caixa e saí tocando de qualquer jeito. Liguei um gravador e gravei qualquer coisa. Só que meu pai, que tinha olho de lince e malandragem nas veias, enxergou ali uma possibilidade concreta e me presenteou com aulas de violão clássico.”
Ruy Quaresma estudou violão clássico com o professor Raimundo Menezes, por meio do “Novo Método de Violão - Opus 59”, de Matteo Carcassi (Ed. Irmãos Vitale).
Mas, junto com o violão clássico, não faltou o ensino de “malandragens do violão popular com meu próprio avô e meu pai, que me apresentou às baixarias do choro”.
Seu aprendizado incluiu, ainda, grandes mestres e métodos da música popular. É ele quem recorda a longa e produtiva jornada:
"Dois anos mais tarde, meu irmão Carlos Alberto, que tocava violão, me apresentou um método de Mário Mascarenhas com harmonias modernas, dissonantes,que me abriram um universo novo. Um tio, também amante do violão e amigo de Nicanor Teixeira, Jodacil Damasceno, Jacob do Bandolim e Turíbio Santos me deu o método de Paulinho Nogueira ("Método Paulinho Nogueira: Harmonia", J. Quadros, Editores Culturais, 1968),que foi fundamental na minha formação. Em 1969, fui fazer estágio como arranjador na TV Globo e na Rádio MEC, onde aprendi com Lyrio Panicalli e Radamés Gnattali. Estudei harmonia e contra-ponto com mestre K-Ximbinho (Sebastião Barros), cordas com Laércio de Freitas... E aprendi, tocando e escrevendo, durante dez anos, com Paulo Moura.”
De todo esse universo de aprendizado ele se lembra, especialmente, “das ‘aulas’ práticas com a Orquestra de Sopros da Rádio MEC, o estágio na orquestra da Globo. Enfim, com exceção do método de harmonia de Paulinho Nogueira, ficou de mais importante tudo que foi aprendido no grito, na prática, entre erros e acertos”.
Decisivos em sua formação musical foram “naturalmente, o avô, o pai e o irmão, que me ensinaram os primeiros passos. Depois, muita gente, muitos maestros e músicos que me ajudaram na minha trajetória de arranjador, além dos artistas que ouvia em rádio e LPs, que me estimularam e moldaram meu gosto musical”.
Ruy Quaresma se confessa, apesar de todos os mestres, um autodidata “na base da intuição”.
“Desde os primeiros acordes de violão até os grandes naipes de orquestra. Até leitura e escrita aprendi sozinho, usando meu pai, que lia música, como cobaia, para tocar o que eu escrevia, de modo que eu pudesse verificar se estava certa a divisão rítmica das notas.”
Dos músicos com quem conviveu e convive, os mais importantes para ele desempenharam papéis bem definidos.
“Paulo Moura e Baden Powell talvez sejam os principais. O primeiro pelo tempo de convívio e pela oportunidade dada para criar, escrever, arranjar etc. O segundo pelo impacto que me causou com seu estilo inconfundível, me influenciando até a alma. Mas houve também Johnny Alf, com quem trabalhei e que me passou muita coisa bonita e importante.”