Forma��o
O pai de Paulo, Roberto Freire, foi um dos fundadores do Teatro da Universidade Católica (TUCA) de São Paulo, era escritor e psicoterapeuta revolucionário. "Uma tia de meu pai era pianista, assistente de Magdalena Tagliaferro. Minha mãe – Gessy de Oliveira Aranha - canta e tocava violino, meu tio (irmão de minha mãe) cantava muito bem – e era gago. Sempre se respirou música em minha casa."
A lembrança musical mais antiga de Paulo está ligada mesmo é a seu pai. Aliás, as duas primeiras. "Meu pai – o escritor Roberto Freire – foi jurado dos Festivais da Record. Muitos dos artistas iam à nossa casa. Fui assistir a alguns dos Festivais – era bem menino. Meus pais escutavam muita música – MPB, canção francesa e italiana, música clássica. Íamos a shows e concertos. Quando tinha 9 anos, meus pais me colocaram em uma aula de piano. Mas eu queria jogar bola na rua."
Por um tempo, o futebol venceu a música. Paulo só voltou a se interessar por tocar um instrumento três anos depois, por influência do irmão.
“Meu irmão mais velho – Tuco Freire – começou a estudar violão e foi me estimulando. Eu devia ter uns 12 anos. Tive algumas aulas de violão clássico. Tocava em casa e tentava tirar algumas melodias. Até que entrei no CLAM (n.e.: Centro Livre de Aprendizagem Musical – inovadora escola de música fundada pelo Zimbo Trio em 1973 e ainda hoje em atividade) provavelmente em 1973. Esse foi o momento que me levou à música."
O CLAM tinha como professores alguns dos principais músicos brasileiros. Paulo estudou violão na música brasileira com Sabá e guitarra com Cláudio Celso. Ele guarda a memória especial de um grande professor. "Luiz Chaves me abriu as portas para as infinitas possibilidades da música brasileira."
As infinitas possibilidades se traduziram numa mudança física: Paulo foi morar no sertão do Urucuia, no norte de Minas Gerais, região que inspirou João Guimarães Rosa a escrever "Grande Sertão Veredas". Nesse cenário, Paulo Freire conviveu e aprendeu tocar viola com os mestres Adão Barbeiro, José Costa e, principalmente, Manoel de Oliveira, seu Manelim. "A viola traz o mundo do sertão e estes mestres me guiaram."
Paulo se revelou um aprendiz insaciável. De volta a São Paulo, estudou violão clássico com Henrique Pinto.
"Henrique me mostrou a importância de cada nota tocada, aprumou minha sonoridade, ajustou meu caminho musical. Aí, fui a Paris estudar violão erudito com Betho Davesaky, que continuou o trabalho que eu vinha fazendo com Henrique, e depois acabou me devolvendo para a viola – mostrando que este era meu instrumento."
A essa altura da vida, Paulo já colecionava uma infinidade de métodos, exercícios e vivência que formaram seu modo de tocar e interpretar.
“No CLAM era o método criado por eles. Acredito que uma mistura do que se fazia na Berklee, com diversos elementos da música brasileira: choro, bossa nova, Clube da Esquina, samba, etc. Com Henrique foram seus livros, além do Carlevaro, Villa-Lobos e outros estudos. Com Betho Davesaky passei por J. S. Bach, Downland, Leo Brower, continuei o Villa-Lobos, o repertório de violão. Com os mestres do sertão aprendi a observar a natureza e depois transformar tudo em música.” .
Paulo Freire insiste em valorizar o conjunto quando instado a destacar o mais agradável e o mais útil de seu aprendizado.
"Mais agradável, sem dúvida, foi a amizade e respeito que tenho até hoje com todos estes grandes mestres que me pegaram pela mão e me mostraram tantos caminhos. O mais útil foram as horas e horas debruçado em cima do instrumento, tentando entendê-lo, desvendá-lo, numa mistura de amor com dedicação."
Paulo Freire inclui na lista de pessoas decisivas para sua formação "meus pais e sua incrível discoteca e gosto musical. E meu irmão Tuco que foi me convidando para tocar. Até hoje somos parceiros musicais."
E no músico com formação tão diversa, do sertão a Paris, que lugar ocupa o autodidatismo? O que Paulo aprendeu sozinho?
"O aprendizado da viola foi de uma forma totalmente diversa. Ouvindo os causos, observando as mãos dos violeiros e depois tentando lembrar os ponteados para tocar da mesma maneira. Atravessar diversas noites tocando em uma Folia de Reis ensina muito. Na verdade, acredito que este é um estudo não formal, tão importante quanto o formal. E também tocar muito, com diversas pessoas, vários estilos, é um grande aprendizado."
Paulo convive com músicos de gêneros e estilos diversos que são hoje sua principal fonte de aprendizado e desenvolvimento. “Isso é um mundo: Tuco Freire e Adriano Busko, Swami Jr., Wandi Doratiotto, Fábio Tagliaferri, todos os músicos da Orquestra Popular de Câmara e do Grupo Ânima, Roberto Corrêa e Badia Medeiros, Ana Salvagni, Maurício Pereira, Kiko Rocco, Mário Carvalho e tantos outros. A lista é muito grande. Mas estes são representativos."