Forma��o
Marta Ozzetti nasceu em uma família em que as artes faziam parte do cotidiano.
“Meus pais não tocavam nenhum instrumento, mas incentivavam os filhos a estudar música. Havia um clima familiar musical como herança dos antepassados: a banda da cidade de Tambaú, interior de São Paulo, ensaiava na casa de meu avô materno, que tocava tuba. O irmão mais velho de minha mãe tocava clarinete e o mais novo, acordeom. Os outros filhos gostavam de cantar, como quase toda família de italianos. Este avô apreciava música clássica, principalmente ópera italiana. Quase todos os seus 11 filhos têm nomes de óperas. Nas décadas de 1930 e 1940, era nos programas de rádio que se ouvia música clássica. Meu avô reunia sua família em volta do rádio, apagava as luzes da sala e, assim, ouviam música. Do lado paterno, não houve nenhuma manifestação evidente, só o desejo do meu pai de tocar violino, que nunca se concretizou. A família Ozzetti, tios e primos de meu pai, formavam o grupo de teatro amador da Lapa”.
A primeira lembrança musical de Marta faz parte de uma constante em sua vida. “Ouvir minha mãe cantar por toda a minha infância e até os dias atuais”.
Marta começou a estudar música no Colégio Experimental da Lapa, uma escola pública que marcou época em São Paulo no final dos anos 1960 por seu estilo inovador de ensinar, em que a criatividade do aluno era sempre estimulada. “Gostava muito da aula de música, da bandinha, do coro. No mesmo colégio, entrei para o grupo de flautas doces da professora Sofia Helena, no qual comecei a aprender flauta doce”.
Na seqüência de seus estudos de música, Marta encontrou uma lenda da flauta em São Paulo. “Quando estava na oitava série, saindo do Experimental, um amigo da escola me contou que estava aprendendo flauta transversal com um professor velhinho, muito legal, que morava na Lapa. Este amigo me perguntou se eu não queria aprender também. Fui conhecê-lo e gostei muito dele, era o professor João Carrasqueira. Ele me vendeu a minha primeira flauta transversal, marca Grassi”.
“Aos 17 anos, entrei na Fundação das Artes de São Caetano do Sul (SP) para estudar teoria musical, percepção, etc. Foi em 1978 e esta escola tinha uma proposta de ensino musical muito diferente dos conservatórios. Considero que minha base musical se deu nesta escola. Havia ótimos professores, com idéias de renovação que atendiam sobretudo aos músicos populares. Acho que foi uma das primeiras iniciativas voltadas a aperfeiçoar o músico popular brasileiro, criando uma maneira brasileira de ensinar música”.
Aos 20 anos, ela foi estudar violoncelo com Alberto Jaffé no Centro de Ensino Musical do Sesc. Sua trajetória, do Colégio Experimental da Lapa ao Sesc, passando pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul, forma uma espécie de itinerário privilegiado na formação de um músico nos anos 1970 e 80 em São Paulo. Ela ainda se lembra dos métodos que utilizou nessa trajetória.
“Com o professor João Carrasqueira, utilizávamos o Taffanel (“Méthode Complète de Flûte”, Taffanel e Gaubert, Ed. Alphonse Leduc), o Galli (“Método Completo para Flauta”, Ed. Ricordi) e algumas valsas que ele escrevia na hora para eu tocar. Eu tinha 15 anos. No Sesc, era uma aula coletiva numa orquestra de cordas, em que todos aprendiam juntos. Havia um monitor para cada instrumento e ele cuidava para resolver as dificuldades de cada naipe. As peças eram muito simples, pelo menos no começo. Parei quando senti necessidade de comprar um instrumento para estudar em casa, mas não foi possível.
Na Fundação das Artes, as aulas eram muito dinâmicas. Na aula de percepção utilizava-se o sistema de cantar 1,2,3,4,5,6,7 para as escalas maiores, utilizava-se o Pozzoli (“Guia Teórico-Prático, Partes 1 e 2 para o Ensino do Ditado Musical”, Ed. Ricordi) e outro método desenvolvido pelo professor Carmo para estudo rítmico. Havia aula de piano complementar, mesmo para quem não fazia aula de instrumento, que era o meu caso. Na aula de apreciação ouvia-se música do mundo todo e de todas as épocas. Era a aula de que mais gostava. Foi nesta aula que, através de um trabalho, entrei em contato com a música africana e minha percepção de música mudou consideravelmente. Tinha aula de canto coral muito interessante”.
Além dos cursos regulares, Marta sempre participou de cursos de verão, inverno e seminários. “Considero que os cursos de verão e inverno que duram um mês, também foram importantes para minha formação. Posso citar três: o Festival Internacional de Verão de Brasília, em 1979, o I Seminário de Música Instrumental em Ouro Preto (MG), em 1986, e o Vulcan - São Paulo, em 1990. Destes, o Seminário de Música Instrumental era o mais voltado à música popular. Tive contato com muitos músicos profissionais que foram contar um pouco de suas experiências, consegui muitas partituras de choro da Rio Música Arte - não havia quase material nesta época, o que existia não era muito bom- cedidas por Henrique Cazes. Aprendi muito sobre harmonia moderna com o método do professor Ian Guest (“Harmonia, Método Prático, vols. 1 e 2”, Ed. Lumiar)”.
De cada etapa de seu processo de formação, Marta guarda lições valiosas.
“Em relação ao professor João Carrasqueira, o mais agradável foi seu jeito de contar histórias e brincadeiras e também de me acompanhar ao violão em pequenas canções. E sua metodologia que eu aplico nas aulas que ministro. Da Fundação das Artes, o desejo de me tornar profissional. Do Seminário de Música Instrumental de Ouro Preto, a percepção de que a área da música popular tinha muito a ver comigo”.
Um dos filhos do professor Carrasqueira também teve papel importante na formação de Marta Ozzetti. “Toninho Carrasqueira foi muito importante porque me introduziu na vida profissional. Meus primeiros alunos foram indicados por ele”.
Com tantos professores e lugares especiais houve espaço para o aprendizado autodidata?
“Muita coisa eu aprendo sozinha, principalmente como, o quê e quando estudar determinados exercícios, dependendo da minha necessidade num determinado momento. Também procuro estimular meus alunos a buscar uma forma própria de aprender”.
Dos músicos com quem conviveu, Marta reconhece alguns que foram fundamentais na sua formação.