Forma��o
Mário Lúcio Marques nasceu em uma família musical.
“Sou descendente de índios com brancos por parte de minha mãe (Krenak/botocudos) e, por parte de pai, de negros com brancos. Brinco sempre que não sei se sou ‘Maismaluco’ ou ‘MaisConfuso’ (mameluco/cafuzo). Na verdade, digo que sou um sarará sarado. Talvez por isso a música e seus ritmos estivessem muito presentes em nossas vidas. Meus tios tocavam em bandas de música, nos coretos das cidades ao redor de Poté. Tocavam desde instrumentos de percussão até cordas e sopros.”
A mais antiga lembrança musical de Mário Lúcio está ligada exatamente à sua família. “Minha mãe e minha avozinha Maria Vaz cantando e tocando com duas colheres e fazendo um ‘coco’ que tinha um suingue danado e ninguém conseguia ficar parado. Lembro especialmente de minha mãe cantando ‘Casa Desmoronada’ de Augusto Calheiros; ficava maravilhado com a letra e com a melodia e, principalmente, com a doçura com que ela cantava com sua voz de soprano. Gostava muito de assistir às apresentações das bandas de música das cidades vizinhas (cidade de Ladainha, por exemplo) e do regional ‘FA LA SI MI Queres’; tudo isso me deixava hipnotizado. Era a única coisa que me tirava do futebol. Desde pequeno, fugia de casa para assistir às serenatas. Minha mãe nem se abalava pra me procurar em outro lugar. Perguntava pra alguém onde era a serenata e já ia direto lá me pegar.”
Mário começou a tocar flautinhas de bambu aos sete anos de idade.
“Aos 17 anos, eu e dois irmãos começamos os estudos de música e solfejos em Poté com o professor Ari Silva, que era o maestro e clarinetista da cidade. Em pouco mais de um mês, eu já estava lendo e solfejando e, desta forma, meu mestre colocou em minhas mãos um sax soprano Veril muito velho, caindo aos pedaços. Depois de três meses, eu já estava tocando no regional da cidade. Mas meu instrumento do coração sempre foi o clarinete. Meus irmãos desistiram em três meses...”
“Em 1977 me mudei para São Paulo e, em 80, comecei meus estudos na Fundação das Artes de São Caetano, com Edgard Poças e Roberto Sion. E o meu grande mestre de complementação harmônica e melódica, que me ensinou tudo o que ele sabia, foi Cláudio Leal Ferreira. Um maravilhoso mestre. Um fato interessante: Em 1981, Cláudio ganhou o prêmio de melhor arranjo no Festival MPB/Shell da Rede Globo com ‘Londrina’ de Arrigo Barnabé, interpretada por Tetê Espíndola e eu, o seu discípulo, ganhei o mesmo prêmio na outra edição do Festival, em 1985 com ‘Mira Ira’ (N.Ed.: de Lula Barbosa e Vanderlei de Castro).”
Quanto aos métodos em que estudou, Mário relata que, em Poté, os alunos não estudavam com métodos específicos e, sim, com partituras de choros. Já na Fundação das Artes de São Caetano do Sul (SP), ele estudou o “Método Completo para Divisão”, de Pascoal Bona (Ed. Irmãos Vitale).
Sobre o que ficou de mais útil e, também, mais agradável de seus
estudos, Mário diz que “sem dúvida nenhuma foi o solfejo, cantando as notas e não rezando. Coisa que adoro fazer até hoje... Cantar as notas. Aliás, adoro escrever para grupos vocais à capela. No meu CD solo ‘Monólito’, gravei com sopros um arranjo para ‘Canção da América’, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que fiz para vozes.”
Para Mário Lúcio Marques, Ari Silva, Edgard Poças e Cláudio Leal Ferreira, nesta ordem, foram as pessoas decisivas em sua formação musical.
“Uma frase que me marcou nesta fase de aprendizado foi: ‘Mário, quando você for tocar, não importa o que seja - jazz, blues, funk, choro -, volte pra Poté, volte para a sua essência; assim você será ouvido com o coração'.”
Mas, no que diz respeito à aprendizagem específica de cada um dos instrumentos que toca, Mário se declara autodidata.
“Nunca tive professor de instrumento algum. Todos os instrumentos que toco, aprendi sozinho. Saxofones alto, tenor e soprano, clarinete, flautas doce e transversal, piano e teclados, violão, guitarra e contrabaixo elétrico, bateria e percussão.”
Quanto aos músicos com quem conviveu e convive e sua importância para o músico que ele é hoje, Mário diz: “Todos os músicos com quem convivi e convivo me influenciaram de alguma forma, seja profissional, musical ou pessoal. Mas, destaco especialmente Raul de Souza e Cesar Camargo Mariano.”