Forma��o
Na família de Manu Falleiros não existem outros músicos profissionais.
“As músicas do começo de minha vida foram as de Janis Joplin, Jethro Tull, cantos dos índios bolivianos com a zamponha [flauta de bambu – N. do E.], a Sinfonia Heróica de Beethoven, Stan Getz, Louis Armstrong e Demônios da Garoa.”
Manu começou a estudar teoria musical aos sete anos e a tocar saxofone aos oito. “Nessa época, assisti a um show ao ar livre de Hermeto Pascoal. Fui ao camarim pedir que escrevesse uma composição para mim e saiu das mãos dele o 'Frevo pro Manu'. Foi um momento muito agradável.”
Em Santo André (SP), sua cidade natal, frequentou o Conservatório Santa Cecília. Seu primeiro professor foi Edu Moreno, que considera seu principal mentor “porque me ensinou o mais fundamental para a música: escutar.”
No início de seus estudos, aprendeu a tocar três temas de jazz: “Autumn Leaves”, de Joseph Kosma e Jacques Prèvert; “Bluesette”, de Toots Thielemans; e “Alice in Wonderland”, composta por Sammy Fain e Bob Hilliard. “Com eles comecei a dar canjas. Minha primeira foi no bar Jazz and Blues, em Santo André, meio escondido e com minha mãe, porque eu era menor de idade.”
A formação musical de Manu Falleiros inclui um workshop com o saxofonista estadunidense Brandford Marsalis, e quatro participações como aluno bolsista no Festival de Inverno de Campos do Jordão (SP). Mais tarde, sua família mudou-se para o interior, período em que estudou sozinho e fez algumas aulas particulares para preparar-se para o vestibular.
Graduou-se em música popular na Unicamp, período em que, por alguns meses, conviveu com os saxofonistas Mané Silveira e Rodrigo Ursaia. “Rodrigo me mostrou como os jazzistas construíam as melodias e melhorei bastante; eu só escutava a nona do acorde, ele me encaminhou para ouvir as outras tensões.”
Depois deles, a importância do convívio com David Richards: “Ele me alertou sobre o timing das músicas, isto é, a sincronia com o pulso, com o ritmo.”
Manu Falleiros estudou música clássica com Dale Underwood e fez matérias de composição na época da graduação. Foi aluno, também, do saxofonista Vinícius Dorin, “que me apresentou outros padrões simétricos. Muita gente com quem toquei e conversei me ajudou bastante também.”
Em seus estudos, fez uso do “Método Completo para Saxofone” (Editora Ricordi) , de H. Klosé, “do qual eu modificava as melodias e dizia que eram minhas composições. Logo depois estudei com o “Método Completo para Solfejo” (Editora Ricordi), de Paschoal Bona, que eu achava à época uma bobagem, e “Solfejo” (Editora Ricordi), de Ettore Pozzoli, que eu adorava. Nesse, eu tentava ler linhas consecutivas ao mesmo tempo e também ler em defasagem. Só muito depois descobri que o compositor Steve Reich usou essa técnica na sua famosa peça 'Clapping Music'”.
Manu Falleiros estudou ainda toda a coleção da Editora Rubank para seu instrumento, e pelo menos dez dos métodos com playbacks de Jamie Aebersold. “Meu professor me dava solos transcritos de jazz e eu praticava junto com a gravação.”
Alguns colegas lhe emprestaram livros de exercícios para bateria e para guitarra, que ele praticou ao saxofone. “Em 1994, consegui cópia dos métodos e partituras de saxofone do Conservatório de Tatuí, e em 2001 terminei de estudar todos eles por conta própria. Senti naquele momento que tinha uma boa base de conhecimento para seguir adiante.”
De tudo o que aprendeu, Manu Falleiros considera, como conhecimento mais importante, a relação dos elementos musicais com o pulso da música.
As figuras decisivas em suaformação musical foram seus pais, “que bancaram meus estudos, ensinaram-me a importância da disciplina e a separar o que era superficial e desimportante.”
“Assisti com nove anos de idade a um show ao vivo do grupo “Brecker Brothers”, a primeira vez que escutei Michael Brecker ao vivo. Identifiquei-me com o compromisso que ele tinha com o que estava fazendo no palco.”
Manu Falleiros considera também a relevância, para sua formação, da paciência e gentileza de todos os seus professores na transmissão de seu conhecimento.
Quanto ao aprendizado autodidata, o músico comenta: “Estudar, praticar e aprender são domínios diferentes, mas muitos os confundem. Eu não aprendi nada completamente sozinho. As informações em um livro me ajudaram, o instrumento me ajudou, as pessoas me ajudam. Não acredito que se aprenda sozinho, o conhecimento é social. Na verdade pratiquei muito solitariamente, no meu quarto, pesquisando em livros e tocando no meu instrumento, escutando músicas várias vezes e observando os detalhes. Preferia me ater aos detalhes, e isso fez muita diferença depois. Algo muito importante para mim foi ter realizado transcrições de músicas, incluindo improvisações, e ter tocado junto com as gravações. Acho isso muito importante até hoje, essa mimese é um estudo libertador.”
Para Manu Falleiros, todos os músicos com que conviveu foram importantes.
Destaca, entre eles: Edu Moreno, Mané Silveira, Teco Cardoso, Rodrigo Ursaia, Vinícius Dorin, Nailor Proveta, Vitor Alcântara, Cacá Malaquias, Michel Leme, Cuca Teixeira, Gus Barros, Daniel Baeder, Dudu Luke, Bruno Coppini, Ramon Montagner, Marcelo Calderazzo, Maguinho, Arno von Buttner, Walmir Gil, François de Lima, Edu Ribeiro, Arismar do Espírito Santo e seu filho Thiago Espírito Santo, Léa Freire, Tibô Delor, Jarbas Barbosa, Mozar Terra, Rogério Bocato, Carlos Malta e Yamandú Costa.
"A coisa mais relevante que aprendi com eles foi a seriedade no trabalho de músico e a importância de se tocar com pessoas que tenham conteúdo pessoal e musical. Sinto pelos outros amigos que não citei, senão a lista iria ficar muito grande.”