Formação
Na família de Liliana Bollos, somente sua mãe estudou música: "Piano clássico, até o sexto ano do conservatório, em São Paulo. Quando casou-se, trouxe o piano, mas eu a ouvia tocar muito raramente. Anos depois, quando eu já estudava, ela já não tocava mais. Meu pai era muito musical, mas nunca estudou música."
Algumas de suas lembranças musicais mais antigas são a de seu pai ao piano, tocando, com um dedo só, "O Sole Mio", de Eduardo de Capua, Giovanni Capurro e Alfredo Mazzucchi, as viagens familiares ao som de fitas cassete de música orquestrada, e a coleção de discos da cantora Maysa, de seu tio.
Liliana Bollos começou a tocar e a estudar música pouco antes de completar seis anos. Recebeu aulas particulares de piano clássico da professora Irce Seixas até os 12, quando passou para o Conservatório de São José do Rio Pardo, onde estudou com D. Margarida durante um ano, e com Maria Teresa Ratti de Oliveira, a diretora, nos cinco anos seguintes.
Depois de terminar o conservatório, mudou-se para São Paulo, ingressou no curso de Letras na USP e seguiu seus estudos musicais no CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical, escola criada pelos músicos do Zimbo Trio), tendo sido aluna de piano popular de Jaime Neves e Fernando Motta. Fez ainda algumas aulas com Hilton Jorge Valente, o Gogô e com Nelson Panicalli.
Anos mais tarde, transferiu-se para a Áustria e lá diplomou-se em piano-jazz na Universidade de Artes de Graz, sob orientação de Harry Neuwirth.
Liliana Bollos ainda possui consigo praticamente todo o material que utilizou em seus estudos: "Lembro-me bem de algumas partituras que estudei quando ainda era muito pequena, e todo o material de piano clássico está devidamente documentado. Recordo-me que, em minha primeira audição, toquei "Flor Celeste", de Salvador Callia. Isso foi em dezembro de 1970. Há poucos anos achei uma foto que meu pai tirou desse dia, com a data no verso. Tenho o costume de marcar a data em que trabalho cada material, então é fácil lembrar."
"No CLAM, o material era todo desenvolvido pela escola, foram anos ótimos de muito estudo e aquisição. Nas aulas com Nelson Panicalli trabalhamos improvisação; eu gravava o que tocava e discutíamos minhas transcrições - não usamos livro ou material pedagógico. Em Graz, muito material novo, novas publicações da Berklee, Advance Music e Hal Leonhard, mas principalmente o convívio com a nova cultura, novos músicos, novas músicas, trabalhos em grupo."
A pianista guarda, de seu percurso musical, lembranças de várias experiências que lhe proporcionaram diferentes habilidades. "Desde pequena tive facilidade de tirar música de ouvido, ou mesmo repetir o que a professora tocava pra mim. Depois, veio a necessidade de ler melhor e a professora do conservatório é que me mostrou isso. No CLAM, aprendi a tocar música popular de forma mais organizada. Com Nelson Panicalli foi a improvisação. Meu marido, Fernando Corrêa, foi também importante neste percurso. Na Universidade de Música de Graz, meu professor de piano disse que eu deveria tocar mais em trio. Consegui um lugar para tocar toda semana às quartas-feiras no meu último ano, foi ótimo."
Ao tratar do aprendizado autodidata, a instrumentista comenta: "Uma característica importante no aprender sozinho é tirar as músicas, transcrevê-las. Sou de uma geração para a qual já havia escola de música, principalmente a popular, que é bem recente. Sempre gostei e tive curiosidade em saber como tocavam os músicos que tanto admirava. Por isso, acho que, para um músico, é muito importante ouvir outros músicos e transcrever os grandes. Isso é uma forma de alcançar originalidade: conhecer para amadurecer."
Dos músicos com quem conviveu e convive, os mais importantes para Liliana Bollos são os que têm ou tiveram, por característica, a ousadia e a originalidade: "Admiro muitos músicos, mas algo que me chama muito a atenção é a capacidade de produzir novos trabalhos com inovação. É comum vermos um músico com seu trabalho reconhecido, mas, ao longo dos anos, ele não conseguir trazer inovação ou mesmo originalidade ao seu trabalho. O repertório muda, mas não os componentes - concepção, arranjo, harmonia, por exemplo. Isso acontece porque, ao atingir um certo nível, o músico diminui os estudos, as pesquisas diárias. Portanto, admiro os que têm um compromisso com o estudo e trazem, consequentemente, a cada novo trabalho, algo novo em sua música. Fernando Corrêa e o saxofonista Vinícius Dorin são exemplos para mim. O compromisso deles com o estudo surpreende-me a cada dia."