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Ivan Vilela
Ivan Vilela Pinto
* 28/08/1962 Itajubá, MG, Brasil.
Instrumentista, arranjador, compositor, professor, ensaísta.
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Forma��o

 

Ivan Vilela é o caçula de uma família de onze filhos.
 
Minha mãe, quando criança tocava bandolim. Ela nasceu em 1915. Meu pai foi ferroviário durante toda a sua vida de trabalho. Apesar de ter apenas o primário, ele sempre foi afeito à poesia. Estudou por conta própria e se tornou um grande conhecedor da língua e da literatura portuguesas. Poeticamente, esteve sempre ligado ao parnasianismo. Minha lembrança dos tenros anos é a de muita música rolando em casa. Tinha uma irmã beatlemaníaca, um irmão que estudava engenharia e sonhava ser maestro que só escutava música clássica, alguns irmãos ligados à contracultura que escutavam música de protesto, MPB dos anos de 1960 e 70 e ícones da folkmusic como Bob Dylan, Joe Cocker e Joan Baez. Descobri que tive um tio-bisavô, o Zé Cambraia, que tocava viola. Deve ter falecido no início do século XX.
 
Ivan Vilela traz, entre suas memórias musicais mais antigas, as lembranças de sua mãe cantando, da música que se ouvia em sua casa e das reuniões de família em que sempre se cantava muito.
 
Quando tinha 11 anos, Ivan ganhou de seu pai um violão.
 
Sempre um ou outro irmão, que tocava um pouquinho, aparecia com um violão em casa. Em posse do violão, aprendi alguns acordes e comecei a compor, pois não sabia tocar nada de ninguém. Lembro-me que, nesta época, meus irmãos ouviam muito Chico Buarque e Noel Rosa. Ainda com onze anos comecei a estudar violão clássico, mas não gostei; achava estranho só tocar músicas de outros períodos históricos. Não era lúdico. Após ter aprendido rudimentos de leitura e técnica, abandonei o estudo de violão e voltei a compor minhas canções.”
 
O primeiro professor de violão foi, em 1973, Amaury Vieira, em Itajubá.
 
Larguei com menos de oito meses de aulas. Voltei novamente, aos 17, mas não de forma intensa. Com 19 anos, quando assumi que era música o que eu queria para a minha vida, comecei a estudar com mais afinco. Aos 20 anos passei um ano estudando no Conservatório de Pouso Alegre, MG, e com 22 anos comecei a fazer aulas de teoria com Alba Machado. Desde os 19 anos, por sugestão de Amaury Vieira, comecei a escrever todas as músicas que eu cantava; isto me deu fluência na escrita. Segui sempre me apoiando também no autodidatismo, o que foi bom e ruim. Ruim porque andei mais lentamente, bom porque desenvolvi minha maneira de pesquisar e construir meu pensamento musical.
Aos 17 anos, no colegial, reencontrei um amigo de infância de meu irmão e fizemos o cursinho juntos. Ele tocava Milton Nascimento, Chico Buarque, Ivan Lins, Gonzaguinha, Tom Jobim, João Bosco e tudo mais de fino que havia na MPB. Ele começou a me ensinar essas músicas no violão e pedia que eu as cantasse quando encontrávamos os amigos em algum bar. Na época, eu já compunha e participava de festivais. Ganhei alguns festivais e dois prêmios de melhor intérprete, isso com 17 anos.
Havia em Itajubá um engenheiro, compositor, grande compositor, chamado Luiz Celso de Carvalho. Luiz Celso é autodidata e, sem exageros, comparo sua obra às de João Bosco e Toninho Horta. Luiz Celso era o rei da harmonia. Sabia tudo, intuitivamente, e tinha caminhos próprios, originais. Ele me adotou, musicalmente falando, e aprendi muito com ele.
Em 1986, aos 24 anos, comecei a estudar violão com Everton Gloeden por diversos períodos, até 1991.
Daí para adiante segui estudando sozinho até prestar vestibular na UNICAMP (SP) para Composição Musical. Eu tinha 26 anos. Lá, fui aluno de José Eduardo Gramani e de Almeida Prado. Cito esses dois por serem os que mais estiveram perto de mim durante o curso. Na UNICAMP estudei por um ano e meio com Ulisses Rocha, em 1992 e 1993.”
 
Em seus estudos iniciais de violão, Ivan Vilela estudou pelos métodos de Maria Lívia São Marcos – violonista brasileira radicada em Genebra, Suíça; Isaías Sávio – que tem diversos métodos dedicados ao instrumento, lançados pela Editora Ricordi; Henrique Pinto - “Iniciação Ao Violão” (2 Volumes), “Curso Progressivo De Violão” – Para 2º, 3º, e 4º anos (em seqüência ao livro Iniciação Ao Violão’’), “Técnica Da Mão Direita: Arpejos” (todos pela Ed. Ricordi); e Abel Carlevaro - “Escuela de la Guitarra”; “Escalas Diatônicas”; “Técnica Aplicada” – 2 vols.; “Técnica de Mão Direita” – 2 vols.; “Técnica de Mão Esquerda” – 4 vols. (Editora Barry de Buenos Aires, AR).
 
Paralelamente a isto fui desenvolvendo um repertório de violão clássico.”
 
Durante esta formação, um acidente de percurso mudou o caminho que Ivan ia seguindo em direção ao violão.
 
Quando já cursava a UNICAMP e fazia aulas com Everton Gloeden, tive um cisto na mão direita devido à tensão ao tocar. Na realidade ele veio crescendo com minhas trocas de professores, em que cada um dizia para eu arrumar a postura de maneira diferente. Nesta época, parei de tocar e resolvi fazer carreira de iniciante de violão. Comecei do mi si sol (primeira lição) e, com a ajuda do Everton, de um espelho e de um livro de anatomia, fui entendendo como funcionava meu corpo quando eu tocava. Para isso, tive que esquecer todo o repertório anterior, pois ele estava associado a uma memória muscular que criou o cisto. Assim, desaprendi o que já tinha aprendido e, naquele momento, eu estava compondo a ópera caipira e precisei aprender a tocar viola caipira para poder escrever para ela. A partir daí, passei tudo o que tinha aprendido para o tocar viola e como nossa relação, da viola comigo, foi muito intensa, fui aos poucos relegando o violão a uma posição secundária em minha vida. Hoje, ensino meus alunos a descobrirem sua própria postura para tocar.
 
Além da ajuda inestimável de Everton Gloeden, “também as aulas de composição com Almeida Prado eram sempre o deslumbrar de um mundo novo. De útil, também, foi a postura ativa diante do tocar que Ulisses Rocha me ensinou e a postura ativa do fazer que o José Eduardo Gramani me ensinou.”
 
Assim, Ivan cita como decisivas em sua formação musical, “algumas pessoas”:
 
Luiz Celso, meu mestre primeiro, pelas harmonias. Almeida Prado pelas concepções e musicalidade. Gramani pela forma como via a música. Ulisses Rocha pela maneira de tocar. Anton Webern pela economia de meios ao compor (aprendi muito com ele). Debussy, pelo universo sonoro e de texturas que se descortinou diante de mim quando comecei a estudá-lo. A turma do Clube da Esquina pela maneira mais musical como fazia música. A música dos mestres populares dos interiores de Minas quando comecei a pesquisá-la, universo este aberto a mim pelo antropólogo Carlos Rodrigues Brandão. E Elomar, pelos caminhos polimodais apontados em suas canções populares.”
 
Ivan já comentou aqui que o autodidatismo foi, para ele, “ruim porque andei mais lentamente, bom porque desenvolvi minha maneira de pesquisar e construir meu pensamento musical.” Complementando esta idéia, ele diz: “Aprendi inicialmente a tocar ‘de ouvido’ e ‘tirando’ músicas dos discos. Sempre me incomodou muito a maneira como era estruturado o ensino da música clássica que estudei. Uma submissão desmedida a uma música que era tratada como superior e excessivamente calcada em valores do Romantismo europeu. Notei, depois, que esta era a postura dos colonizados músicos eruditos brasileiros pois, ao conhecer Gramani e Almeida Prado, vi que havia músicos eruditos que não se submetiam cegamente a valores que não lhes diziam respeito. Assim, sempre cuidei de aprender do meu jeito as coisas, aproveitando o que eu achava interessante e descartando o que eu via como submissão de colonizados. O que me assustava, mormente, não era a submissão a uma partitura e, sim, a uma edição desta ou daquela música... um ‘amém Jesus’ que não tinha tamanho.”
 
Ivan Vilela diz quem e o quê foram fundamentais para o músico que ele é hoje:
 
Aprendi com Almeida Prado e Gramani a ser transgressor, mas com propriedade sobre o assunto. Com Ulisses Rocha, a me colocar inteiro em cada nota que tocava. Na viola, Renato Andrade e Almir Sater, pela maneira ousada como tomaram e usaram o instrumento e Tavinho Moura, por mostrar que é possível trazer outros universos para dentro da viola. Renato Kefi, pela capacidade de ser musical sem repetir ninguém e Guimarães Rosa, que sem ser músico, compôs uma imensa obra musical em sua literatura. A maneira como ele absorvia e recriava o universo popular que pesquisava é para mim referência de como se trabalha a cultura popular. Não convivi com Elomar, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Villa-Lobos e rock progressivo, mas os ouvi até cansar. Também a música do Brasil de Dentro.”

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