Formação
A família de Érico Baymma sempre foi musical. Além da paixão por discos, sua avó era ligada a diversos artistas, entre eles Luiz Gonzaga, e promovia noites dançantes ao som do rádio.
A música fazia parte da vida familiar na formação de grupos vocais, solistas e muitos instrumentistas. "Meu tio, José Maria, era um grande sanfoneiro e cantor. Minha mãe tocava piano e cantava, assim como minhas tias e a 'grande família', formada pela união de todos os 13 filhos de minha bisavó, seus descendentes e amigos. Todos tinham formação autodidata e, posso concluir, eram muito talentosos, pelo que sei de suas referências e vivências musicais."
Entre suas lembranças musicais mais antigas de Érico estão os festivais de música dos anos 60, os filmes dos Beatles, de Rita Pavone "e outros ícones que para mim se configuravam como 'desenhos animados'. Os Beatles eram, para mim, com menos de nove anos de idade, como 'Os Trapalhões", com o aditivo das músicas que causaram repercussão mundial, pela característica prioritariamente eufórica."
Além deles, Érico Baymma ouviu muitas vezes as histórias infantis da coleção "Meu Disquinho" (Warner).
No começo da década de 1970, ao mudar-se para Fortaleza, CE, cidade de origem de sua família, estabeleceu um contato mais próximo com a música por meio da coleção de trilhas sonoras de novelas que começou a fazer, desde "Véu de Noiva", exibida pela TV Globo entre 1969 e 1970.
Começou, ao mesmo tempo, a ouvir o repertório internacional mais atentamente: Michael Jackson, Stevie Wonder, Paul McCartney, John Lennon e Diana Ross, entre outros, "Pink Floyd surgiu em minha vida aos 11 anos, com 'Dark Side of the Moon' (Harvey Records/Capitol, LP/1973 CD/1990), quando descobri um novo colorido para a música. Esse trabalho ainda hoje é referencial para mim."
Érico Baymma cantava todas as canções, inclusive as partes instrumentais, dos discos de Elis Regina, Caetano Veloso, Chico Buarque e Maria Bethânia, entre outros. "Era paixão e, hoje, amor intenso. Citaria F. Nietzsche, no que a vida não teria 'graça' sem música, nem os significados que elas me estimulam."
Como sua mãe tocava piano de ouvido, aos três anos de idade Érico já experimentava o instrumento. Por volta dos sete, viveu um período de estudo formal, mas somente em torno de seus 11 anos, a partir do surgimento da música de Pink Floyd e do disco "Elis - 1973" (CBD-Phonogram/Philips, LP/1973, CD/1993, CD/1998), é que começou a se dedicar a descobrir os sons possíveis no piano.
"Por volta dos 16, busquei aprender violão. Sempre cantei, mas o violão trouxe o canto à tona. Comecei a compor para piano aos 15 anos, e pra violão, aos 17. Meu estudo nunca foi formal, teve sempre uma busca íntima de uma sonoridade, uma relação com a sonoridade que seria minha, uma busca de subjetivação, mas sem consciência formal do que estava fazendo. Foi aos 25 anos, num contato com uma diva da música brasileira, que recebi o aval das minhas expressões musicais, começando a apresentar-me publicamente."
Érico Baymma fez aulas de piano dos sete aos nove anos com uma professora amiga de seus pais. De modo mais assíduo, estudou com a regente Izaíra Silvino, aos 26 anos, quando começou a participar de corais como forma de estudar técnica vocal. Fez parte dos corais da Universidade Federal do Ceará e do Jornal O Povo, e do grupo vocal Coro de Boca, e com essa experiência, acredita ter realizado "os estudos informais e vivenciais das diversas formas de expressão criativa e musical."
Por ter estudado piano muito cedo e ido morar em Fortaleza, CE, o músico dedicou-se fundamentalmente às experiências autodidatas e deixou de lado o estudo de partituras, retomado somente mais tarde.
O violão, aprendeu por meio de revistas, songbooks e pelo método de cifras. "Tudo incorporado às dissonâncias da bossa nova, quando entrei no mundo do 'estranhamento', nas primeiras audições de 'Amoroso' (WEA, LP/1977, CD/1987), de João Gilberto - um árduo e rico aprendizado para a música que viria a fazer. Nesta época, também conheci Keith Jarrett no inenarrável 'Köln Concert' (ECM Records, LP/1975, CD/1999), que veio me trazer a grandeza da criação musical e as multi-dimensionalidades sonoras, as quais incorporei à minha forma de construir sonoridades, e da pulsão para a criação."
A respeito do que considera o aprendizado mais agradável, e o mais útil, entre tudo o que aprendeu, Érico Baymma diz: "Fui professor de música para teatro na graduação de Artes Cênicas do CEFET-CE, o que veio me trazer a consciência de todas as conquistas que a música em minha vida me trouxe. A incorporação de significados de acordo com timbre, inflexões, diversidade musical e sonora, a pluralidade de possibilidades sonoras possíveis, fizeram-me capaz de transmitir de uma forma vivencial mecanismos de desenvolvimento humano, através do reconhecimento dos recursos artísticos, e até da compreensão do que seja a arte. Este momento fez-me reconhecer a importância da música de João Gilberto e Keith Jarrett, que concretizaram em mim o que mais me encanta na existência: a criação, a emoção, a liberdade essencial. Assim, creio que o mais agradável foi sentir a amplitude da vida que deve ser explorada e o quanto é maravilhoso, dinâmico e estimulante o mundo, como existência e como fazer musical e sonoro."
Elis Regina, João Gilberto, Caetano Veloso, Pink Floyd e Keith Jarrett são, para ele, referências incontestáveis em sua formação e exercício de vida e de fazer musical-artístico. "A grandeza de suas progressões em busca da construção de uma sonoridade, com o poder libertário da música, veio me trazer uma consciência existencial em todas as suas dimensões e possibilidades. A grande saída dos modos fundamentalistas de manipular crenças e convicções, exercê-las e impô-las às pessoas, acredito que este seja o maior ganho através de minha formação musical."
Érico Baymma, cujos estudos formais somam uma pequena parcela em sua formação, compreende que a música construída de modo autodidata "é um dos grandes ganhos existenciais, pois é experiência absorvida, degustada, construída e rompida, formada e 'desenformada' a partir do aumento de alcance das percepções que se faz necessário de acordo com essa vivência."
"Aliás, proporcionar vivências, ao invés de proporcionar o decorar de conhecimentos, é um fator determinante para a construção de um indivíduo e embasa seus conhecimentos incorporados. Praticamente, desaprendi tudo o que me foi ensinado formalmente, e desta forma, faço um paralelo à vivência musical oriental, indiana essencialmente, em que o envolvimento como o todo musical chega a não requerer qualquer conhecimento ou utilização de aparatos formais, como a partitura, como forma de apresentação da música, sem prejudicá-lo em nada."
Para Érico Baymma, daqueles com quem conviveu e convive, os mais importantes para o músico que veio a se tornar foram Elis Regina, Zé Luiz Mazziotti, Nana Caymmi e Rosa Passos, que considera essenciais para a continuidade de suas pesquisas musicais, vocais e instrumentais.
André Mehmari acrescenta-lhe o quesito fundamental da identidade: "suas construções passam pelas linguagens artísticas clássicas e populares, de artistas que têm fortes identidades musicais construídas, fundamentadas e, mesmo assim, preservam sua própria identidade nesta polifonia de linguagens, que poderia ser perdida ao utilizar a linguagem referencial de outros."
Mônica Salmaso traz a ele a consciência da música: a vivência da voz como instrumento em uma nova dimensão mais ampla, sem perder o significado essencial do vocal e do instrumental, mas ambos incorporados a um princípio básico: a própria música.
"Ná Ozzetti traz-me a postura cênica como adicional da construção de linguagem sonora, também essencial. Poderia citar outros vários com que convivo, já que ouço música freqüentemente, o que concebo também como uma vivência artística. Cito apenas dois desses artistas: Shirley Horn, em canto e piano, como referencial da 'música do silêncio'; e Philip Glass, como construção de ambientes sonoros que traçam texturas que chegam à visualização – para mim, obviamente, embora não creia que seja diferente para outros apreciadores de sua música."