Forma��o
Um parente não muito distante de Arrigo Barnabé foi um importante músico brasileiro.
"Um primo de minha avó paterna é um músico importante no nosso cenário: Nabor Pires Camargo, clarinetista de Indaiatuba (SP), foi o primeiro clarineta da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo durante muito tempo, e escreveu um importante método de estudo de clarineta, usado por todos os estudantes do instrumento. Ele também foi autor de choros, serestas, etc..." (n.e.: "Método Para Clarineta", Editora Irmãos Vitale).
Mas a primeira lembrança musical de Arrigo não vem da clarineta de seu "primo-avô" e, sim, de uma composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
"Lembro de quando ouvi 'Assum preto' pela primeira vez. Tinha cinco anos, e comecei a chorar. As canções mais antigas em modo menor me davam uma tristeza, uma vontade de chorar... Lembro também das missas, que duravam horas, e eram cantadas em latim... Nessa época eu devia ter sete, oito anos."
Arrigo começou a estudar música e piano entre os nove e os 10 anos de idade.
"Comecei com a professora de violino do meu irmão Marcos, que também era pianista, além de dentista. Fiquei pouco tempo com ela. Mas devo minha formação mesmo à dona Eudora, professora no Conservatório Filadélfia, que era de batistas - o conservatório era dentro de um colégio protestante. Devo a ela um contato não superficial com a obra de Bach."
Dos métodos e exercícios utilizados em seu aprendizado, "lembro bastante dos de piano. De teoria, acho que usávamos o livro da Maria Luiza de Mattos Priolli ("Harmonia", 2 vols., Ed. Casa Oliveira de Músicas). De piano, comecei com o Francisco Russo ("Método Infantil Para Piano Com Ilustrações" e "Método Para Piano", Ed. Irmãos Vitale). Depois, com a dona Eudora, estudei as '23 Peças Fáceis', de Bach, o Burgmüller (n.e.: Friedrich Burgmüller tem diversos métodos com estudos para piano), Hanon ("O Pianista Virtuoso", Ed. Irmãos Vitale), Czerny (n.e.: Carl Czerny tem inúmeros métodos com exercícios para piano e órgão), as 'Invenções a Duas Vozes', de Bach, a 'Sonata em Dó maior', de Mozart, etc...".
De tudo, o que ficou de mais útil e agradável para Arrigo, foram as "Invenções a Duas Vozes", de J. S. Bach, que "continuam até hoje como um ideal de composição."
A professora, dona Eudora, foi a figura marcante e decisiva na formação musical de Arrigo Barnabé, "porque ela tinha uma prática com coral, na Igreja Batista, regia o coro, aquelas obras de Bach que eles faziam todo domingo. Então, ela tinha um interesse e uma seriedade muito grandes com relação à música, e era uma coisa viva, não-dogmática."
Mesmo assim, boa parte desta formação se deu de maneira autodidata.
"Aprendi a compor sozinho, aprendi a técnica dodecafônica com o livro 'Qui És El Dodecafonismo', de H. Eimert, acho eu. Estudei orquestração com manuais. Enfim, a parte 'profissional', fiz tudo sozinho."
Entre os músicos com quem convive, dois são destacados por Arrigo como os mais importantes para o músico que ele é.
"Bom, no período de gestação do álbum 'Clara Crocodilo', que foi de 1972 a 1980, meu principal colaborador e interlocutor foi o meu irmão Paulo Barnabé. Até hoje, continua sendo um grande crítico, com uma visão estética muito próxima da minha. Com ele eu aprendi que poderia usar as séries dodecafônicas de outra maneira, que poderia conseguir, às vezes, mais resultado com menos complicação, e aprendi também que poderia usar muito menos notas no trabalho, além da compreensão do universo estético da classe média e média-baixa, como fonte de inspiração para o trabalho. Atualmente, meu principal colaborador é Paulo Braga, companheiro dos palcos, tocamos juntos há 20 anos e em duo há 17. Já existe uma compreensão telepática entre nós, e conversamos através dos instrumentos. É muito gratificante, para mim, trabalhar com ele, pois consigo ter uma liberdade, quer dizer, consigo me sentir livre tocando com ele, e ele toca tão bem... A tendência natural seria a de me inibir diante de uma técnica tão superior, mas o Paulo é uma pessoa especial, e faz com que me sinta à vontade tocando com ele."