Airto Moreira tem notícias de que seu bisavô era cantor de ópera na Itália. Seu avô também cantava, mas não profissionalmente.
Entre suas lembranças musicais mais antigas estão a vozes de Albenzio Ferroni, cantor italiano que ouvia no rádio, e de Vicente Celestino, Dalva de Oliveira e Luiz Gonzaga, que ouvia nos alto falantes de uma praça em Ponta Grossa (PR). "Eles me emocionaram muito. O cantor Paraguaçu, que se acompanhava no violão também me impressionava, pois além de instrumentista e cantor, era também um grande compositor."
Airto Moreira começou a tocar ainda criança. Sua mãe lhe contou a seguinte história: "Eu ainda engatinhava, começava a tocar as coisas e fazer barulho. Ela achava aquilo tudo muito estranho e que eu talvez tivesse algum problema. Então, me levou para a casa da minha avó em Curitiba, onde fiquei em observação. Certo dia, engatinhando, sentei-me no chão e comecei a fazer alguns sons estranhos com a boca e a bater com as mãos no chão. Muito assustada, minha mãe chamou a minha avó e falou: ‘Olha, ele está tendo um ataque!’ Minha avó me observou por um instante e foi até o rádio, que estava ligado tocando uma música, e o desligou. Eu imediatamente parei de tremer e fazer aqueles gestos e sons, e fiquei quieto. Minha avó pôs as duas mãos na cabeça e falou: ‘Deus do céu, ele vai ser músico!’."
Com cinco anos de idade, Airto Moreira já cantava na rádio de Ponta Grossa. Estudou dois anos na academia de música da cidade, "mas infelizmente não aprendi nada, pois queria tocar tudo de ouvido. Fingia que estava lendo. Estudei com uma professora de piano muito rígida, de quem eu não gostava; também por isso não aprendi nada. Porém, nas festas e comemorações da academia, eu era o primeiro a ser convidado para cantar."
Aos 12 anos, começou a se apresentar como percussionista e cantor. "Trabalhava com Seu Antônio, um acordeonista italiano nosso vizinho, e tocávamos nas fazendas e chácaras de imigrantes europeus, em casamentos, aniversários e festas, normalmente das nove da noite às cinco da manhã. Às vezes, viajávamos de seis a oito horas a cavalo para chegar no lugar onde iríamos tocar, eu na sua garupa."
Airto lembra-se de aprender, nessas aulas, uma valsinha chamada "O canto do galo", cuja autoria desconhece.
De tudo o que aprendeu, o que ficou de mais agradável e de mais útil, foram "a energia que a música traz quando a tocamos e a maneira com que essa energia é passada para o público. Até hoje essa é a coisa mais importante na minha vida."
A figura decisiva na formação musical de Airto Moreira foi sua mãe, que o acompanhava nos programas de rádio e aos concursos de calouros para crianças na praça de Ponta Grossa. "Ela sempre procurava saber o que estava acontecendo e sempre me levava nos eventos para tocar e cantar."
O percussionista considera-se um autodidata. "Posso dizer que aprendi quase tudo o que sei ouvindo e observando os músicos tocarem ao vivo, mantendo depois tudo aquilo na minha cabeça e no meu espírito."
Dos músicos com quem conviveu e convive, Airto Moreira destaca alguns dos mais importantes: Raul de Souza, Moacir Santos, Edison Machado, Dom Um Romão, Hermeto Pascoal o coreógrafo Lennie Dale, a cantora Flora Purim, o Quarteto Novo e o Sambalanço Trio, dos quais fez parte. (n. e.: o Quarteto Novo era formado por Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte e Theo de Barros, além de Airto; seus companheiros de Sambalanço Trio foram Cesar Camargo Mariano e Humberto Clayber.)
Mais tarde, influenciaram o percussionista alguns músicos norte-americanos, como Elvin Jones, Art Blakey e Jack DeJohnette, os da orquestra de Gil Evans, do grupo Weather Report, da banda de Miles Davis e Chick Corea.
"Com eles aprendi muitas coisas boas, como também algumas coisas ruins, pois ninguém é perfeito. Posso dizer que a minha personalidade musical foi formada por esse apanhado de pessoas e de coisas que se passaram."